Wednesday, November 08, 2006

CADERNOS DA FAFIC (QUATRO)

Pesquisa & Ensino: um diálogo necessário

I – Introdução: a Licenciatura e o diálogo entre diferenças
01. Estamos iniciando o I Seminário de Iniciação Científica no Curso de Licenciatura em História da Fafic, momento mais do que oportuno para refletir sobre o diálogo entre o Ensino e a Pesquisa. Afinal, mais do que qualquer outro curso, a Licenciatura precisa desse diálogo, por um lado porque, sendo um curso universitário, deve ter Pesquisa e, por outro lado, porque forma professores para o Ensino na Educação Básica.
02. No próprio título deste texto, a palavra “diálogo”, por oposição a “monólogo”, pressupõe uma diferença entre duas coisas: Pesquisa, de um lado, e Ensino, de outro. Mas o diálogo instaura não uma diferença que separa e afasta, mas uma diferença que aproxima e articula. Ou melhor, o diálogo faz com que duas coisas diferentes possam ser consideradas como complementares.

II – O que é a Pesquisa?
03. A palavra vem do verbo “perquiro”, em latim, que quer dizer procurar, buscar, mas uma procura ou uma busca feita com cuidado e com profundidade. Procurar com cuidado quer dizer “com método”; procurar com profundidade quer dizer “com teoria”. Não pode haver pesquisa sem método e sem teoria.
04. No dia-a-dia, são quase infinitos os exemplos rudimentares de pesquisa. Neles o método e a teoria são tão simples e corriqueiros que até parecem não existir. Quando procuramos uma bermuda na loja ou escolhemos laranja na quitanda; quando procuramos uma faculdade para estudar ou um livro para ler... Em cada caso, temos idéias sobre o que queremos e elas devem ser confrontadas com as coisas que encontramos.
05. Mas a pesquisa de verdade, ou melhor, a pesquisa acadêmica ou científica, de que tratamos aqui, é outra coisa. Ela tem um objetivo indeclinável que é obter um conhecimento específico e estruturado, fazendo avançar um assunto ou um tema preciso. Por isso mesmo, a pesquisa é o fundamento de toda ciência: se não houve avanço é porque não houve pesquisa; se não houve pesquisa, não é ciência.
06. Dentre tantas razões que justificam a Pesquisa, podemos destacar sua importância por pelo menos quatro motivos: para o desenvolvimento da ciência, para o avanço tecnológico, para o enriquecimento da cultura e para o progresso intelectual do indivíduo.
07. Finalmente, fazer Pesquisa significa percorrer três passos essenciais: preparar o Projeto (o que pesquisar, como, por que, para que e em quanto tempo), empreender a Coleta de Dados (recolher, mas às vezes produzir e também processar os dados) e elaborar o Produto Final (analisar os dados, construir as idéias e os argumentos, além de redigir o texto).

III – O que é o Ensino?
08. Para ficarmos com uma resposta corrente: ensino é transmissão de conhecimento. Mas não uma transmissão mecânica ou automática, onde uma fonte emite e um receptáculo recebe a informação; nem mesmo um processo comum de comunicação, pelo qual se transmite uma mensagem qualquer.
09. Ensino, pois, é transmissão, mas uma transmissão didática de conhecimento porque apresenta três peculiaridades:
a) é intencional, ou seja, parte da decisão de produzir a aprendizagem de outrem, reconhecendo, portanto, a existência de dois sujeitos distintos: um que ensina e outro que aprende;
b) é processual, ou melhor, reconhece a distância entre intenção e gesto ou entre a decisão de ensinar e o resultado de aprender: entre um e outro, é importante considerar o que e o como ensinar / aprender;
c) é educativo, isto é, além da instrução ou da informação sobre conteúdos conceituais, envolve também a educação ou a formação sobre atitudes e valores.
10. Finalmente, embora pareça quase óbvio, é possível dizer que o Ensino é importante em pelo menos dois sentidos: primeiro, porque é condição de acesso ao conhecimento socialmente produzido e acumulado; segundo, porque é cada vez mais indispensável ao convívio e às relações humanas nas sociedades letradas do mundo contemporâneo.

IV – Conclusão: os Professores e o diálogo entre complementares
11. Saviani ensina que, embora diferentes, não é possível haver Pesquisa sem Ensino: se a Pesquisa é a incursão no desconhecido e o desconhecido só se define pelo contraste com o conhecido, é o Ensino que permite o acesso ao conhecido (ou aos conhecimentos já existentes).
12. Saviani também ensina que o desconhecido não é aquilo que individualmente se desconhece, mas o que a sociedade globalmente não conhece. O conhecido, por outro lado, só se torna socialmente conhecido pela força socializadora do Ensino.
13. Enfim, se a Pesquisa cumpre a missão essencial de permitir a descoberta de conhecimentos socialmente novos, o Ensino tanto é pré-requisito (a plataforma de onde se salta do conhecido em direção ao desconhecido), quanto é condição para a socialização dos novos conhecimentos.
14. Se o Professor – que a Licenciatura pretende formar – é o sujeito do Ensino, ele não pode deixar de participar desse diálogo com a Pesquisa. Mas qual Pesquisa interessa mais de perto aos Professores? Bem, essa é uma outra conversa...

1 Comments:

Anonymous Rodrigo Rosselini said...

Fundamental essa discussão. Fale mais sobre este seminário, precisamos divulgar, a maioria dos professores desconhece esta relação entre pesquisa e ensino. Mereceria um seminário contando com outras instituições para ampliar as discussões.
Um abraço.

7:24 AM  

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